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terça-feira, 3 de março de 2015

Toda vez que lembro choro como se fosse a morte de uma pessoa. A morte de um eu que faleceu recém-nascido. Tão jovem, tinha a vida inteira pela frente.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Quarta (depois de Terça)


Do bailinho ao trio elétrico o som foi abaixando. O movimento nos bares já diminuiu. 
É sempre assim o fim do Carnaval.
Depois de quatro dias de festa, até o dia seguinte pede pausa de tanto brilho e cor. 

Fico feliz por dessa vez ter ouvido menos reclamação, menos "enquanto o povo pula, os corruptos estão livres pra fazer a festa". Sério, gente chata, tem 361 dias pra cuidar da vida durante o ano. Dá tempo. Não me venha tirar o direito de fingir que tá tudo bem.

Às vezes rola uma cara emburrada no meio da folia, mas com o dedinho levantado, festivo.
Problemas sempre existem e não vão parar por causa do Carnaval. Quem se dispõe a sorrir, pisoteia neles, sufoca com confete, afoga com cerveja.
Ainda bem que não precisei me preocupar com nada sério e pude optar pela ilusão da música animada, da desordem no meio das ruas, da maquiagem. Vezes quatro.

A necessidade de exagerar na comemoração vem de antes, muito antes de mil novecentos e cinquenta e alguma coisa. Mesmo quando falta ânimo, há a desculpa: é Carnaval!
Parece imposição, mas se escolhe viver essa alegria fugaz (obrigada pelas palavras poéticas, Chico Buarque!). Não deixo passar. Comemoro, nem que seja como "tributo".
Aproveito a lisonjeira oportunidade de ver o comércio fechando pro bloco passar e vou.
Vou, feliz, vendo as pessoas cansadas insistindo em pular sem querer desperdiçar um dia sequer dos quatro dias (pra mais) de festa. 
Vejo cada paralelepípedo da velha cidade se arrepiar ao lembrar que lá passaram sambas imortais. Também me arrepio e canto os mesmos sambas. Refaço um percurso ancestral que certamente se repetirá, como aconteceu até agora.
Carnaval cíclico, repetidamente.



sexta-feira, 10 de agosto de 2012

História de Verdade

- E qual a emoção que você quer sentir?
- Ah, umas emoções aí... de história de vida real mesmo.


Vim buscando sensações relevantes em coisas simples. Me colocava no lugar de algum personagem de filme pra vibrar junto com ele na hora do beijo debaixo da chuva. Provava sabores de sorvete que nunca tinha provado, pedia Campari sem saber que tinha um gosto horrível e tomava até a última gota como se estivesse competindo em alguma maratona de drinks. Pode rir, mas eu buscava realização nessas coisas babacas. Buscava aí porque estava um pouquinho cansada de pessoas. Pessoas decepcionam, e ao contrário de um copo de bebida, não podem ser jogadas fora se não são do nosso gosto.
Dava muito trabalho buscar ser surpreendida positivamente, sabe? Aí, depois de tanto querer e ver que surpresa só vem quando a gente não espera, respirei fundo. Peguei a coragem que passeava por aqui e coloquei no bolso.
Foi fazer isso e ver que a vida da gente, a vida de verdade mesmo, é muito mais interessante que qualquer história da ficção. E se não for, é porque os autores não estão fazendo o seu melhor.
Todo mundo tem um pouquinho de autor em si. Tem também um pouco de vilão, de mocinho, de governanta e de mordomo: tudo que uma trama precisa. Mas é muito difícil saber que se tem tanta coisa sem a ajuda de alguém. O outro é necessário pra abrir nossos olhos.
Consegui emoções, mas não sozinha. Não se pode fazer quase nada sozinha, muito menos conquistar grandes emoções. Minha história é uma obra conjunta, feita por muita gente e com diversas ações construídas. Com cenas grandiosas feitas na base da insistência, com uma pitada de coincidências (devo muito ao "de repente"). 
Insisti porque sabia que valeria a pena, pelo menos desconfiava. Coisa boa a gente sempre desconfia que pode acontecer. E não dava pra esperar, entende? As emoções que tiram a gente do chão eram uma necessidade. Precisava ir atrás e precisava conseguir.
Não sei como está saindo, só sei dos capítulos anteriores. Só vou saber do hoje amanhã na hora da leitura, pois só se lê aquilo que foi escrito. É um probleminha de autoria, mas uma absurda vantagem de vida: ter o presente tão cheio de emoções misturadas que mal se pode ver.
Mas o bom de escrever a própria história é que ela só termina quando acaba. Antes do fim, a gente tem que se virar e preencher páginas em branco, linha por linha.

domingo, 8 de julho de 2012

Guerê-guerê

  Eu quase me importo. Chego a ter um pouquinho de pena. Tem horas que as lembranças vêm e pesam um bocado, mas aí eu conto até 10 (5, 3... depende) e passa.
  Não sei como isso não acontece com vocês.
  Isso que sou uma das pessoas mais passionais que conheço.
  Sério que vocês ficam remoendo, re-sofrendo tudo outra vez só por desespero? Eu faço isso, sim, mas só pra não correr risco de me enganar outras vezes. Pra minha memória ficar bem atenta do quanto aquilo me foi inútil e saber que fazer de novo é totalmente dispensável.
  Confiem, é bom agir assim. Economiza sofrimento e adia rugas - sim, tenho me importado muito com rugas, porque já consigo enxergá-las.
  O título e a imagem ali embaixo são uma tentativa de representar um gesto: ombrinhos balançando. "Valéria, sua babaca prepotente. Hipócrita. Vai dizer, agora, que nada te atinge?" Tudo me atinge! Se deixasse marcas, daria pra ver no meu corpo a quantidade de decepção. Uma vez atingida, posso chorar e posso nem ligar. Além disso, prefiro superar.
  Superar às vezes dói. Tem quem ache que é coisa de espíritos evoluídos. Eu acho que é economia de tempo.
  "Enquanto eu não encontro" uma saída, dá pra viver todo o resto que se tem pra viver. É mais ou menos como um download: enquanto uma coisa tá sendo processada, outra pode começar ou terminar. (show de metáfora, não? -n) É mais prático, sabe?
  Não aprendi isso sozinha, não. As coisas que vi(vi) e as pessoas que conheço e ouço falar foram que me ensinaram. Devem ter ensinado a vocês também, não é possível! Vocês é que não prestaram atenção.
  Pode fazer escândalo, pode ser o pior do mundo. Vai passar. O que (quem) fica é muito pouco (mas é o que vale a pena).
  Apesar de cansativas, as coisas que causam rugas também fazem a gente crescer.
  É como a velhice: incomoda a marca que deixa no rosto, mas a bendita experiência compensa. Aí é só mudar a cara - tantas as maneiras que existem de rejuvenescer a aparência - e lidar com o que vier com o mesmo rostinho de adolescente. Ninguém diz que você tem tantos anos. Vale até mentir a idade.
  Antes enganar os outros que ser enganado, né?
  Mas enganação é outra história... que pra mim [ombrinhos balançando]...



domingo, 24 de junho de 2012

É...


"Cansou de fazer sempre os mesmos programas
Cansou, então inspire-se na ousadia
E afaste a monotonia da sua semana
A monotonia do seu dia após dia"

  Grande defeito esse meu de enjoar rapidamente das coisas. Me incomoda um pouco, mas me traz mais bem-estar que incômodo, logo, deixo assim mesmo e trato de não mudar. Assim, a novidade sempre me aparece. A agonia do marasmo é pior que a pressa em ajeitar tudo bonitinho pra deixar as coisas bem interessantes antes que entediantes.
  Só não me cansei ainda das coisas que se renovam.
  Inflexibilidade é chato. Flexibilidade demais é falta de personalidade. Eu acho.
  Eu sei lá... gosto mesmo é da minha vida, que nunca é a mesma. Nem nunca vai ser.

sexta-feira, 11 de maio de 2012

Não vesti azul, e ainda assim funcionou

Sabe olhar em volta?! Então... Foi por aí que começou.
Andava meio reclamona, tipo velha ranzinza. Sabia que tinha que parar de ser má agradecida com a vida, de ser grosseira e impaciente, mas não sabia o que fazer pra que pudesse mudar.
Nunca fui daquelas com má sorte, mas sempre fui campeã em reclamação.
Queria que tudo acontecesse do meu jeito e ficava realmente chateada se não fosse assim. Fingia que tava tudo bem quando não tinha outra alternativa, mas meu modo de extravasar preferido era choramingar e bater pé até mudar a situação.
Mas, com o tempo e com as vivências, aprendi (acho até que aprendi bastante) a ser mais sensível, no sentido de "perceptível" mesmo. Aí que comecei a olhar ao redor. Fui percebendo o quanto era feliz e como, inacreditavelmente, eu conseguia tudo o que queria. Tudinho. (Confesso que fica mais fácil de acontecer quando você, assim como eu, muda de ideia rapidamente e, geralmente, de acordo com as circunstâncias.)
Mesmo de mau-humor (mentira, não tenho mau-humores) consegui desenvolver uma aptidão (?) de reconhecer aquilo que já foi conquistado e o que precisa de cultivo, e isso me ajudou bastante a mudar minha sorte.
É isso. Um depoimento de felicidade a vocês. Pensei nisso como um achado que merecia ser dividido.
Fácil piorar o que já está ruim. Mas não chega a ser difícil fingir que não viu as falhas. É como se fosse ver um porta-retrato bonito no meio da mesa empoeirada. É compensador. Revigorante.
Uma sensação tão boa quanto encontrar vestígios de purpurina na Quarta-Feira de Cinzas.


domingo, 15 de abril de 2012

Levitação

  Uma vez, ouvi num filme a seguinte frase dita por um carinha que levava um pé na bunda da personagem principal: "você quer que alguém te tire do chão, mas está mais interessada em ser tirada do chão do que em quem vai tirar você dali". Meio que rolou um processo catártico.
  Tenho pensado muito no que seria um "querer", principalmente por não saber o que quero. Não é só uma reflexão, mas também pesquisa.
  Pesquisa.
  Pesquisar "qual o sentimento que mais estou interessada no momento" foi nomeado o ponto mais ridículo de racionalidade em que cheguei.
  Triste é chegar nesse ponto, logo eu. A sempre sonhadora, sempre espontânea, sempre totalmente a favor da sinceridade. Pff! Tudo evaporado.
  Tenho encontrado a felicidade cheia de medidas, com a armadura de um caminho traçado. Mas que não por isso deixa de ser felicidade. Só é felicidade não-inconsequente.
  A busca ainda é - sempre foi - voar, sair do chão, sair do dizível, do apreensível. A diferença é que agora é consciente e racional.
  Continuo querendo muita coisa (porque conheço tanta coisa que acho pouco "qualquer coisa" menor que muito) simples, mas difícil de encontrar. Quando é fácil de encontrar, é difícil de segurar. Ainda quero flutuar. Flutuar e ficar. Flutuar sem temer cair. Sem cair com a cara no chão, empurrada. Porque quando o voo vale a pena, a queda (inevitável) dói quase nada.


quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Sobre nada

Dormi pouco, depois tive a sensação de ter dormido demais.
Cansei muito fácil, passei calor.
Quase me animei e desisti.
Deu vontade de ir a lugar nenhum, olhar pro nada e de sair daqui;
Equilibrei um lápis entre os dedos, comi bolacha separando o recheio, copos d'água, idas ao banheiro desnecessárias.
Tento me concentrar, não consigo. Bato recordes em coisas sem sentido.
Cara de cu.

domingo, 25 de dezembro de 2011

2011, meu ano de improbabilidades

Começou como todos: num réveillon sem grandes novidades. O pensamento positivo, a gratidão pelo ano que havia passado, a esperança de que as coisas boas se tornassem cada vez mais frequentes na minha vida, que são os clichês de fim de ano, estavam lá comigo. Estava feliz, mesmo. Mas, por mais estranho que pudesse parecer, queria que o ano que começasse fosse diferente de verdade. Queria me tornar mais egoísta. Isso mesmo, mais egoísta.
Pode espantar e causar reações negativas saber que alguém deseja um "defeito", mas no meu caso era um defeito necessário. Não que eu fosse a mais altruísta das pessoas, longe disso. Mas meu egoísmo ainda era muito infantil. O que eu queria era preservar minhas vontades acima de quase todas as coisas e não segurar as coisas do mundo como se fossem minhas. Aprendi que só é meu aquilo que vem de mim e não poderia ser diferente. Desejei que fosse assim e fui tentando.
Foi difícil. Quem esteve ao meu lado viu quantos tropeços tive que dar pra conseguir me equilibrar nesse "novo estilo", que é apenas um novo jeito de lidar. Continuo a mesma, já que acredito que as pessoas não mudam na sua profundidade. A personalidade é algo que está em construção, mas nunca em reforma. A mudança acontece naquilo que é acrescentado, em cima do que já existia.
Mas voltando ao meu "memorial de 2011", queria expressar o quanto esse ano foi diferente. Primeiro por eu levar em consideração os meus desejos, depois por permitir que as coisas novas chegassem até mim. Deu um medo!, mas valeu a pena.
Conheci tanta gente! Gente que nunca tinha visto, que conviveu comigo por um tempão mas que sabia só o nome e qualquer coisa, gente que reapareceu... Teve gente! E, assim como acontece com todo mundo, teve gente que só passou. E mesmo as que só passaram foram importantes no conjunto. No entanto, a superficialidade, apesar de divertida, traz consigo um vazio. É aí que entra a parte "compensatória", a melhor parte de todas: eu ter conhecido pessoas lindas e importantíssimas.
Esse ano foi bom por causa das ações, dos acontecimentos, mas principalmente por causa das pessoas.
Eu queria agradecer a todo mundo que gastou um tempinho me ouvindo, me lendo, indo ver como eu estava. A todo mundo que me recepcionou, se preocupou, que riu comigo.
No dia 31 de dezembro de 2010, eu não poderia imaginar o quanto seria feliz, o quanto ficaria triste, o quanto sentiria saudade, o quanto abstrairia, relevaria, faria escândalo por nada, relembraria, tentaria de novo, inovaria...que ano!
E sou tão, mas tão grata por ter sido exatamente como foi.Tiveram partes dolorosas. Partes preguiçosas. Sou grata por todas as partes, pelas novas, as velhas que foram, as velhas que permaneceram e aquelas que já se misturam com o que sou eu.
Mas o ano, tão impressionante, chegou ao fim. E começa outra vez aquele balanço dos meses passados e a lista de planos pro ano que está prestes a começar. É clichê, sim, mas a promessa de renovação e de recomeço nos traz brilho à vida e um significado mais enfeitado para o encerramento de um ciclo.

E pra terminar, queria dar uma dica, a minha "receita de ano-novo", se é que eu posso usar essa expressão. Pode ser que tudo o que aconteceu tenha sido obra do acaso, mas eu duvido muito. Pra mim, tudo aconteceu como aconteceu - as coisas boas e as ruins - porque eu e os que estavam a minha volta agimos de determinada maneira. Então a dica é: agir. Ficar no fluxo da maré por muito tempo nos faz personagens secundários nas histórias dos outros (o que tem seu lado positivo).
Resta decidir se o momento é o de só estar ou protagonizar.

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Nada novo sob o sol

Por mais que sejamos inéditos, seres únicos, vidas nunca antes vividas, os grandes clichês perduram pela existência humana.
É natural pensarmos que tudo o que nos acontece é realmente especial e diferente de tudo o que aconteceu com todos os outros. E é assim. Não existem coisas repetidas. Notei que o que se repetem são as reações, os modos de agir sobre o que acontece.
Os grandes clichês sobre morte, relacionamentos amorosos, honestidade se repetem incessantemente: romances mal-resolvidos, pessoas sem escrúpulo que aparentemente se dão bem, luto e crenças instantâneas a partir da morte e mais um bocado de coisas que nem consigo enumerar. A angústia de personagens de um romance de 1892, que acontece em outro país, é a mesma sentida pelo casal principal da novela das 7, que é a  mesma angústia de algum amigo seu e de alguém que você nem conhece.
Mas, mesmo assim, nós ainda achamos que temos uma certa exclusividade quando passamos por situações-problema. Por mais que recebamos conselhos, que ouçamos opiniões, acabamos pensando que ninguém nos entende, porque ninguém compreenderia tamanha complexidade emocional. Não. Muita gente já se sentiu do jeito que você está, mesmo que você negue isso.
E como as pessoas dizem: tudo passa. Não adianta conceder título de eternidade.
Estava condenada ao desespero sem-fim e nem poderia imaginar que estaria bem, menos de uma semana depois. Uma semana é tão pouco tempo quando estamos tranquilos e um suplício quando estamos aflitos. O tempo passou se arrastando e agora ele voa, como sempre. E eu continuo sem poder fazer quase nada, mas agora sem desesperar.

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

"... but it sure feels good to me"

No meio de uma tarde sem grandes expectativas, estava ouvindo música e mexendo em papéis antigos.
Eis que começa a tocar uma música que gostei desde a primeira vez que a ouvi: Right to be wrong


Acho incrível que desde a oitava série eu já sabia que essa música tinha a ver comigo. Com 14 anos eu pensava que com 20 estaria muito resolvida, com meu plano de vida completo. Doce ilusão de pré-adolescente!
Graças a Deus troquei planos por desejos e dúvidas por decisões.
Não quero me gabar por ser a "senhora bem-resolvida", até porque ainda faço muita coisa pelos outros (e só por eles), mas me irrita muito não ter visão de um próximo passo. Isso é o que me faz pensar sempre, planejar o nada (nada = tempo para nada; deixar o tempo passar sem deixar marca alguma; pausa no caos) e até sonhar o absurdo. Sou da opinião de vale mais pensar em qualquer coisa do que não pensar em coisa nenhuma (salvo algumas vezes que nada melhor do que o vazio e o silêncio para viver. Algumas vezes.).
Não ter planos prontos me causou um pouco de desespero, mas o "mistério" do que está por vir, do não-planejado, traz mais do que brilho de novidade. É um incentivo para estar pronto para qualquer coisa, sem que isso implique em se deixar levar.

Quase criança, eu sonhava com uma vida adulta que me permitisse ser livre. Sonhava com não dever satisfações, com uma liberdade que a gente acha que ganha conforme vai envelhecendo, e quando envelhece, vê que se perde muito mais do que se ganha.
Se perde mais tempo, se ganha outras coisas. Viver tem disso.
Mas mesmo perdendo a liberdade que tinha quando podia caminhar sozinha na praia, fazer suco de laranja com beterraba,  comer pão de trigo com leite condensado e se foda o mundo, ganhei consciência. O que é uma vantagem relativa, porque achava realmente bom poder conversar com a Angélica pela televisão sem ninguém achar anormal.
Se eu podia fazer tanta coisa, imaginava que, quando fosse gente grande, poderia sair correndo pelo mundo fazendo o que bem entendesse.

Agora, depois de poucos anos e muita vida, sei que não funciona bem assim.
A gente não tem tudo o que quer. Mas tem a possibilidade de enxergar o que deve ser feito e de desenvolver uma sensibilidade para o que pode dar certo.
"I'm feeling wings though I've never flown". Não é preciso viver tudo e analisar todos os pontos minuciosamente para poder alçar voo.
Tenho todo o direito de usar minha intuição e me sobra arcar com as consequências negativas de vez em quando.
Engulo muitos sapos e é provável que isso aumente dia a dia. Mas cada sapo é decisão minha.
Não saio fazendo o que quero o tempo todo, mas sei que posso. A vida seria totalmente diferente, seria outra, mas continuaria sendo minha.
Com o tempo, adquire-se coragem para mover e consciência para desfazer o movimento - lembrando que apesar de podermos voltar atrás, o que já passou deixou marcas. 
Posso mudar e voltar pro lugar que nunca devia ter saído. Posso só ficar aqui.
Temos permissão desde que demos satisfações e justificativas.
Temos todo o resto se tivermos coragem e se formos suficientemente inteligentes.




p.s.: Falar de coragem depois de ter visto o resultado das ações é fácil. A covardia vem do que ainda não passou.
p.s. 2: Falta do mínimo de coragem e de inteligência é um problema. Eu acho.

terça-feira, 5 de julho de 2011

Revirando o baú

Mexendo naquelas caixinhas de lembranças que a gente insiste em guardar, jurando que vai chegar pelo menos nos 80 anos pra tirar um mês só pra reler agendas, cartas, textos e tudo o que tiver, encontrei um texto que fiz em 2006. Provavelmente coloquei na agenda como mensagem de fim de ano pra alguma amiga, já que os clichês são intermináveis e tem um tom de "Filtro Solar" dizendo coisas que você deve ou não fazer. Mas mesmo assim, acho que vale a pena colocá-lo aqui. Vale como ilustração da ingenuidade de uma menina de 15 anos, que tinha problemas indissolúveis muito mais fáceis de se resolver do que eu pensava.




Chore, beije, ame, abrace, DANCE!
Viva todos os dias de sua vida, porém um dia de cada vez.
Tenha amigos e inimigos, mas antes de partir faça as pazes com todos eles. E, principalmente, tenha melhores amigos. Eles são as melhores coisas que podem acontecer com você. Seja confidente e ouvinte, tenha pelo menos uma pessoa que saiba quase tudo de sua vida, mas tenha seus segredos. Explore as qualidades dessa pessoa ao máximo. Vocês podem descobrir  coisas maravilhosas e viver experiências inesquecíveis juntos. Lembre-se sempre de dizer o quanto as ama, e diga isso quantas vezes for preciso.
Respeite, adore e dê o verdadeiro valor à sua família. Mesmo sendo diferentes, as famílias sempre são as grandes fortalezas.
Sinta dor, saudades. Chore de saudades, de amor, fique confuso, tenha problemas, sinta ciúmes... isso tudo irá servir para você sentir o gosto da glória com mais crença em você mesmo.
Cante! Nem sempre é preciso ter vergonha. Às vezes é preciso perder o controle. Se demorar para voltar ao estado normal, não se preocupe! Pode até demorar, mas uma hora a vergonha volta.
Cometa exageros e tenha consciência do seu limite.
Minta se quiser. Mas quem já mentiu pode afirmar com toda certeza de que mentir não vale a pena.
Ame tudo o que você fizer e se arrependa das coisas erradas.
Ame descontroladamente e divida esse amor com todos que te fazem bem.
Por mais complicada que a vida seja, vale a pena vivê-la em todos os momentos.

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Não faz o mínimo sentido, mas é um texto

“Por pensar demais
Eu preferi não pensar demais
Dessa vez”



Como pode isso de termos tanta certeza sobre a vida, e, do dia pra noite, mudarmos totalmente de ideia?
Esse “do dia pra noite” não é tão rápido assim. Ele vem devagar, aos pouquinhos, discreto. A gente nunca dá muita bola pra ele. Mas, mesmo ignorando a novidade, ela aparece, às vezes arrebatadoramente.
 Eu vivia com uma ideia de vida que envolvia começo, meio e fim. Qualquer desvio de rota não era normal. Era tudo planejado. Não que eu soubesse de todas as coisas, mas meus planos seguiam moldes, modelos pré-estabelecidos por pessoas que eu nem conhecia, mas insistia em segui-los.
No entanto, ultimamente, tenho me questionado demais. E como questionar dá trabalho!
Dá uma sensação de “se eu soubesse que seria tão trabalhoso, nem teria pensado”.
Dá trabalho porque as respostas nunca são tão óbvias quanto parecem. É só começar a pensar para que vejamos que nem tudo o que julgamos ser bom é realmente bom.
Muitas coisas, ou quase tudo, não tem aparência como representante genuína da essência, por isso é tão fácil a gente se enganar.
Essa falta de sinceridade em tudo é ruim, mas excesso de ingenuidade é pior ainda. Viver confiando cegamente é sem graça e viver desconfiado é pesado demais.
O equilíbrio é oriental demais pra mim. Por mais que seja o ideal, prefiro pequenas intensidades. O equilíbrio é quase uma monotonia profunda.




Pensa nisso, pesa aquilo, remonta fatos e parece que vive tudo outra vez. Bom sinal! Quer dizer que tem valor, que fez ser quem é. Vivendo se constrói a vida de cada um.
Olhando pra trás percebi o quanto isso tudo é natural. Reconhecer faz parte do crescimento, assim como perceber, considerar, decidir, assumir... A reticência depende de cada um.
Depois de fazer isso, indico: pensem no amanhã, no ontem e no hoje. Ouça menos e pense mais. Não vamos encontrar resposta para todas as perguntas (até porque não existe certeza de que todas podem ser respondidas), porém, chegar nas perguntas já é um grande passo.
Todas as vantagens de pensar e refletir, de fazer um “balanço da vida”, não fizeram com que o medo deixasse de aparecer. Ele veio, nas horas em que mais estive vulnerável, nas horas das grandes decisões (engraçado falar “grandes decisões” tão jovem. Mas como não se sabe até quando se vive, o tempo de até agora já é suficiente).
O medo me fez achar que a vida de antes, mesmo que monótona, era boa. E era mesmo. Mas mais do que isso. O medo me fez querer que a vida voltasse a ser como antes, só por uma questão de segurança. Essa é a maior covardia. Ter medo do novo.
As novidades vêm com uma cara ótima, trazendo novos ares e, aparentemente, só têm coisas boas a oferecer. Para os pessimistas e conservadores, ela é inimiga cruel que chegou para destruir tudo o que foi construído até ali. Para os aventureiros e sedentos por mudança, o novo é esperado ansiosamente. E, inevitavelmente, para todo mundo, a novidade é um fato que chega e aparece toda vez que a vida ganha movimento e desatola (importante lembrar: os rumos não mudam sem que o vento mude de direção).
Também não adianta muito pensar excessivamente para se preparar para o novo. As coisas novas são diferentes do que você pensa, portanto, você nunca vai estar totalmente preparado.
Pode ser que o antes seja melhor, que o depois seja quase igual e que o agora seja angustiante. Mas por piores que sejam essas sensações, elas foram feitas para fazer parte da vida, para serem percebidas e não analisadas e questionadas o tempo todo.
O questionamento deve surgir da situação e não da sensação. Questionar por si só é a fuga da inércia. Melhor: querer fazer diferente, ter dúvida quando tudo já estava tão certo. Propor e conduzir a novidade em nossas vidas traz uma sensação incrível!
E dá medo, sim. Dá insegurança também. E errar pode significar que você tentou fazer certo, que é muito melhor que não fazer nada.