sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Sobre como a marca da vodca virou sinônimo de status social e outras coisas

  Já venho há algum tempo reparando em certos comportamentos que surgem de repente e desencadeiam uma série de ações. Me questiono com certa frequência: por que tanta coisa vira moda do dia pra noite?
  Alguém influente que usa/come/fala sobre algo é seguido por várias pessoas por um período de tempo, que varia conforme a utilidade do modismo e a influência do criador. Aí, criado o hábito, é só esperar ele morrer sufocado por outros ou pela consciência, que tarda, mas não falha (pelo menos nos mais sensatos).
  Nós, seres humanos, que nos julgamos tão individuais e complexos, seguimos o fluxo, qualquer fluxo, e não adianta dizer que não. Funcionamos na base do exemplo desde crianças. Até os mais outsiders são semelhantes entre si.
  Buscamos inspiração em pessoas que admiramos, em ações que sejam confortáveis, em teorias mirabolantes. E, quando nos falta motivo, optamos pelo mais mundano: o preço. Preço, pelo menos nessa redondeza, é o que dita qualidade e consequentemente procura. Quanto mais caro é o produto, mais seus consumidores crescem na escala social.
  Sim, existe a qualidade e pagamos por ela. Sou desse tipo que não reclama da carestia se valer a pena. Mas queria atentar para um tipo "especial".
  Vocês já devem conhecer os metidos-a-qualquer-coisa que simplesmente copiam, ipsis litteris, o hábito alheio e o tomam como se fosse seu só porque transparece riqueza. Importando o produto, importa-se também a pose, que não cai bem em todos. A pose mal colocada é o que denuncia o tipo.
  É comum (juro! É só reparar!) alguém se mascarar de glamour e mostrar falhas, claras, tamanha a superficialidade de suas ações. Tal qual tropeçar de salto alto. Essa gente só sabe de preços e ostentação.
  Exemplo: brasileiros que somos, temos ainda pretensão de sermos entendedores da mais russa das bebidas (não sei se "a mais russa" até porque não sei nada da Rússia), a vodca. Falta só cheirarmos as tampas e fazermos bochecho para mostrar o quanto somos presunçosos.
  Para mim, isso serviu como alarme da demência generalizada que estamos vivendo. Meio a uma balada, caso você se mantenha sóbrio, pode-se notar que as pessoas (se) classificam conforme a vodca que estão bebendo/comprando. Numa escala que varia entre festa com nome estrangeiro e farofada na praia, para mais ou para menos, temos Belvedere, Absolut, Grey Goose, Smirfnoff, Orloff, Natasha e Raiska: a classificação que supera a escala alfabética de A, B, C, D (e sei lá mais quantas).
  Chegamos num ponto que o upgrade é efeito colateral da ressaca e do valor. Cada foto de rótulo no Instagram é como se fosse uma aparição no Domingão do Faustão, traduzindo para o showbiz.
  Subimos um degrau a cada dose e a torcida é para que o preço seja mantido e a queda não seja tão dolorosa. Pertencemos a novas classes sociais, dependendo do preço marcado no cardápio.
  Entre lentes espelhadas e botinhas ortopédicas fashion a razão do porre é confusa: não se sabe se é por pessoas ou bebidas falsificadas. 
  Assistimos embriagados à nova evolução humana: cabeças mais fracas, fígados mais fortes. Darwin ficaria decepcionado, suponho.

terça-feira, 13 de novembro de 2012

Chicobuarquear outra vez

  Ninguém mais esperava mais nada, até que chegou o dia surpresa. Mais um deles.
  Foi uma micareta. Uma surpresa fora de época que, com insistência, se encaixou no momento presente, assim, milagrosamente, como sempre. Dom do tempo praticamente.
  O calendário é suspenso, colocado em segundo plano em nome do agora. Mas, mesmo não existindo na cabeça, outras marcas denunciam o tempo passado. Aniversários de águas pelo rosto, das mais diversas, não deixam o resto do corpo se deixar levar outra vez tão facilmente.
  Ainda com limitações e cuidados, vejo se aproximar o que era pra ser, o que nunca deveria ter sido, a mistura daquilo que não sei bem se não deveria ter começado ou não deveria ter terminado.
  Acontece e é isso. Só acontecendo dessa vez, deixando, de novo, as coisas acontecerem por si e por ti.